O uso correto da
incapacitação do oponente humano por disparo de arma
de fogo e o respeito aos direitos humanos
Fabrizzio Bonela Dal Piero
Desde a criação da primeira
arma de fogo, os seres humanos tem, constantemente,
buscado mecanismos de aumentar a capacidade
destrutiva do projétil seja por meio de sua precisão
ou potência.
Excluindo-se da discussão ética
sobre o tema, hoje em dia a arma de fogo é
equipamento indispensável para policiais em muitos
países do mundo e seu uso, a maioria das vezes, faz-se
contra um alvo que geralmente é um oponente humano,
que estará pondo em risco além de sua própria vida,
a vida do policial ou também a de terceiros.
Entendemos que mesmo diante
desta tríade funesta a pessoa exercendo o ofício de
policial jamais deve afastar-se das práticas
respeitadoras da dignidade e dos Direitos Humanos.
Portanto, sempre que somos
convidados a escrever ou nos pronunciar sobre o tema
afirmamos que, em uma situação no qual um policial
tenha acesso ao uso de sua arma de fogo jamais deve
usá-la simplesmente para efetuar disparos. Na
verdade entendemos que existem práticas de manejo
fisiológico, manejo negocial e, em última instância
equipamentos não letais que permite alcançar
resultados eficientes e eficazes no cumprimento da
missão de maneira a de fato proteger todas as
pessoas e patrimônio envolvidos em especial;
suspeito, policial e terceiros.
Vale ainda adiantar que apesar
de se considerar atual os estudos sobre danos
decorrentes de ações policiais e militares e de se
trabalharam para que estes sejam minimizados e
conduzidos de forma transparente e dentro das Leis
nacionais e internacionais as pesquisas sobre o uso
correto dos projéteis e das armas de fogo começaram
no início do século, quando soldados
norte-americanos travavam sangrentas batalhas contra
os guerreiros Mouros nas Filipinas.
Naquela ocasião o exército dos
EUA havia trocado suas armas de mão, revólveres Colt
modelo 1873 de calibre .45, por revólveres Colt
modelo 1892 de calibre .38. Nos primeiros conflitos,
os soldados puderam notar que seus oponentes, mesmo
cravejados de balas, insistiam tenazmente em suas
ofensivas. Culparam-se, na época, os novos
revólveres .38 pelos resultados das batalhas, porém,
não se levou em consideração que mesmo o antigo .45
não se mostrava eficaz ante a determinação dos
guerreiros Mouros.
Para atender aos anseios e
receios da tropa o governo norte-americano
determinou então que fossem realizados testes a fim
de se encontrar um calibre eficaz para o uso de seus
soldados. Inúmeros estudos foram realizados e
metodologias aplicadas. Desde disparar contra
cadáveres e analisar o balanço do corpo quando
atingido pelo projétil, até atingir bois e vacas em
matadouros e contar quanto tempo cada calibre
demorava em abater os animais. Não precisamos
concluir, por óbvio, que tais testes se mostraram
absolutamente ineficazes para a determinação da
incapacitação do oponente humano por meio de
determinadas munições.
Em outros tempos não distantes
os ingleses também deram origens a estudos iniciados
nas campanhas na Índia, pois os indianos eram
oponentes muito resistentes, que continuavam a
atacar os soldados ingleses mesmo após serem
atingidos por inúmeros disparos.
Visando solucionar o problema,
os ingleses idealizaram uma munição para armas
longas, no arsenal da província de “Dum-Dum”. O
objetivo desta munição era justamente ampliar o
poder destrutivo da munição em tecido humano. Alguns
autores afirmam que os testes com o chamado conceito
Dum-Dum deram origem aos projéteis encamisados.
Foram experimentados projéteis com corte em cruz,
secionados e com diversos tipos de pontas,
inclusive, primitivas “hollow point”.
Foi a partir de 1973 que diante
dos insistentes pedidos de vários departamentos de
polícia dos EUA, novos estudos foram realizados pelo
Instituto Nacional de Justiça, por meio de seu
programa de assistência a Administração Policial,
desta vez baseados em conhecimentos científicos onde
os técnicos utilizavam gelatina balística ligada a
um computador. A gelatina balística simulava a
consistência de um corpo humano e o computador
registrava o impacto do projétil sobre ela. Porém,
tais testes também não se mostravam totalmente
confiáveis, havendo, inclusive, quem afirmasse que a
gelatina balística utilizada nos teste não possuía a
fórmula adequada a simular o corpo humano.
Entretanto, estes estudos
iniciais mostraram a necessidade de criar mecanismos
de se fazer cessar imediatamente a ação agressora do
oponente por meio de uma transmissão máxima de
energia ao alvo humano, não com o intuito de matar,
mas de pô-lo o mais rápido fora de ação.
Desta forma, nos últimos vinte
anos, vários tipos de projéteis especiais foram
desenvolvidos, visando aplicação em situações
policiais ou defensivas, com o objetivo de maximizar
os efeitos balísticos de transmissão de energia
cinética ao alvo, ou aumento das lesões e
possibilidades de incapacitação imediata de um
agressor.
Atualmente, diante do aumento
da violência tem-se novamente sentido a necessidade
de munições especialmente desenvolvidas, que
possibilitem a obtenção de elevados índices de
incapacitação de um oponente de forma a garantir a
vida em uma situação de crise para todos os
envolvidos e não mais o tiro fatal como resultado
final tendo em vista não só a evolução do conceito
de Direitos Humanos mas também uma melhor qualidade
investigativa da polícia no referente a provas que
possam ser obtidas com a prisão em vida do suspeito.
Na verdade, este novo foco no
tiro policial exige estudos e pesquisas que façam
uso de várias áreas do conhecimento humano a saber:
física, biologia, química, psicologia, medicina
entre outras que busquem juntas condições de criarem
um novo conceito que possa ser transmitido aos
policiais, portadores de arma de fogo, por meio de
uma educação e um treinamento tático e técnico que o
façam aplicar o tiro policial em respeito aos
direitos humanos.
Em análises de casos reais, e
não apenas o raciocínio teórico, mostrou que os
projéteis mais leves, portanto com maior velocidade,
e a configuração desses projéteis, essencialmente,
em pontas ocas, tem melhor desempenho de
incapacitação do oponente humano.
No livro "Handgun stopping
power - A definitive study", escrito por Evan
Marshall e Edwin Sanow, ambos policiais, conseguiram
realizar o maior estudo já hoje procedido sobre o
tema, que durou cerca de quinze anos, onde foram
colhidas informações de tiroteios entre policiais e
meliantes ou entre civis atacados por marginais em
todo o mundo, relacionando os casos em que um tiro
acertado interrompeu uma agressão de imediato. O
trabalho realizado mostrou que os projéteis leves e
mais velozes têm um poder de parada maior do que os
mais pesados, mesmo quando esses têm a mesma
configuração. As conclusões desses autores geraram
muita polêmica, sendo recebidas com descrédito pelos
que se baseavam nos estudos anteriores, no qual se
acreditava que projéteis mais pesados, viajando a
velocidades menores, tinham maior penetração, e,
portanto, poderiam causar maiores danos nos tecidos
humanos atingidos, e possuindo maior poder de
incapacitação do oponente humano.
Vale mencionar que no estudo
destaca-se a eficiência do calibre .357 Magnum, um
dos mais efetivos já criados, e que continua a ser
uma excelente opção, não obstante a atual tendência
no uso de calibres de pistolas semi-automáticas.
Mas será que os policiais
brasileiros estão preparados para usar pistolas em
seus trabalhos de forma que busquem a sua utilização
para alcançar a incapacitação do oponente humano
quando for necessário ou a defesa própria?
Voltamos a insistir que um tiro
policial deve ter por objetivo neutralizar/deter uma
outra pessoa que se possa classificar exatamente
como oponente ao tempo em que deve ser capaz de
assegurar ao policial a necessária segurança para o
correto exercício da atividade.
Dessa forma o pleno
conhecimento das potencialidades do armamento e dos
fatores extrínsecos de riscos deve estar
acompanhando o policial em atividade.
Para alcançar este estágio são
necessárias muitas horas de estudos, educação,
treinamento e simulação além de um perfeito
equilíbrio emocional que deve ser aferido
periodicamente, sempre considerando o nível de
exposição ao risco que o policial está exposto.
Assim sendo, podemos afirmar
que deve estar presente na pessoa investida do poder
de polícia de uma eterna e permanente “opção por não
disparar” além de um contínuo treinamento. Ambas as
condições são premissas importantes para que o
usuário de uma arma de fogo possa conhecer todas as
potencialidades de seu equipamento assim como dos
assessórios que acompanham esta peça fundamental no
trabalho dos profissionais de segurança pública e
privada no Brasil.
Neste ponto é importante
mencionar o quanto falta educação e treinamento por
parte do policial para entender e compreender a sua
arma de fogo e o que pode ser realizado por ela no
comprimento da Leia e da Ordem.
Atualmente nas grandes cidades
é lamentável observarmos o uso por policiais de mais
de uma arma de fogo como uma forma maior de garantia
de sua vida diante a um confronto. Parecendo que
virou até um modismo entre os policiais brasileiros,
possuir uma segunda arma de fogo, fora à idéia de se
ter este equipamento como uma arma de apoio
("back-up gun") para situações de emergência e, em
princípio, perfeitamente válida, no confronto um
policial ter duas armas diferentes representa mais
um risco do que auto-proteção.
A arma de apoio, normalmente é
um equipamento de menores dimensões e calibre que a
arma principal, sendo habitualmente portada de
maneira dissimulada, como num coldre de tornozelo,
por exemplo, que é usada no caso da arma primária
ser perdida numa luta corporal ou, eventualmente,
ser tomada do policial e nesse caso poderá ser usada
contra ele.
Observando atentamente – como
vimos fazendo nos últimos anos – temos visto nas
ruas e em repetidas ocorrências policiais usando
duas armas principais, ou, melhor dizendo,
utilizando uma arma extra em lugar de munição extra.
Percebe-se essa conduta com mais facilidade entre os
policiais militares, cujo armamento é portado de
forma bem mais ostensiva. Em geral, o policial
militar está com sua arma regulamentar (na quase
totalidade, um revólver calibre .38 SPL de cano
médio) e com uma segunda, comumente, uma pistola
particular calibre .380 ACP. E quem anda atento
pelas ruas também vai notar que não é tão raro,
assim, ver-se policiais portando uma terceira arma.
Nesse caso, nossos estudos e
simulações nos levam a afirmar: um profissional que
se arrisca a usar três armas de fogo diferente no
seu dia a dia tem mais chances de errar do que
aquele que usa apenas uma. Isto porque o policial ou
militar estará usando três tipos diferentes de
munição e três armas de funcionamento totalmente
diferenciado geralmente: um revólver de dupla ação,
uma pistola de dupla ação e uma pistola de ação
simples. No que diz respeito às pistolas, elas têm
carregadores, manuseio (teclas de segurança, por
exemplo) e "peso" de gatilhos bem diferentes, o que
é um fator de risco para sua adequada utilização.
Nossos ensaios mostram que uma
pessoa – mesmo bem treinada – tem dificuldades de
interagir com três diferentes equipamentos, mesmo em
ensaios, imagina-se em uma situação de confronto!
Percebemos ser uma tarefa quase que impossível.
Dificilmente este profissional terá consciência de
onde está o carregador específico da arma que ficou
desmuniciada ou qual o funcionamento desta ou
daquela trava de segurança.
Os Estudos que realizamos no
âmbito da TDA 3 em conjunto com Instituições
conveniadas, mesmo em ambiente controlado são
suficientes para que possamos até mesmo afirmar que
se uma pessoa policial estiver com um revólver numa
das mãos e uma pistola na outra equivale, talvez, a
tentar escrever um bilhete com uma das mãos e
aplicar uma injeção com a outra enquanto se assiste
a um filme na televisão!
Nos ensaios que realizamos
somente encontramos um certo “ponto de automatização
e familiaridade” quando se repete o mesmo exercício
em um número compreendido entre 4.800 até 6.000
operações.
Apenas para ilustrar imagine
cada um de nós que está habituado a dirigir um
determinado tipo de automóvel e, de repente, tem que
usar um diferente. É quase certo que vai tentar
buzinar com a alavanca do pisca-pisca, ligar os
faróis no botão do limpador de pára-brisas e assim
por diante. Mas, com armas os resultados podem ser
desastrosos!
Portanto, não preconizamos – e
os estudos realizados comprovam – que não será
ampliando o número de armas que vamos reduzir a
violência e os desastres causados.
Na verdade a solução está na
educação e no treinamento constante que assim se
constitui na mais moderna arma no combate a
violência.
Ao longo de dois anos avaliamos
resultados obtidos por policiais em ação e hoje
podemos compreender que o trabalho policial pode ser
realizado com eficiência e eficácia, reduzindo os
danos usando um revólver calibre .38 SPL de cano
médio, levando uma quantidade decente de munição
complementar, preferencialmente em "speed loaders" (remuniciadores
rápidos), além de portar este equipamento em um bom
coldre de acesso fácil e rápido.
Ainda devemos enfatizar que
para assegurar a segurança do policial não é
necessário adotar o lema do “quanto mais, melhor",
mas, sim, de usar bem o que se tem na mão. Afinal,
poder de fogo não é um monte de "balas" cruzando o
ar é um tiro dado, um alvo acertado no conceito dos
sniper.