Aspectos fisiológicos e
biomecânicos no tiro policial de incapacitação do oponente
humano
Fabrizzio Bonela Dal Piero
Alguns fatores podem criar o medo no
policial de que sua arma de fogo pode falhar quando ele
mais precisa dela e isto colocar sua vida em risco.
Primeiro devemos dizer que falhas são possíveis de
acontecer mas são situações que podem ser entendidas e
evitadas.
Pane na arma de fogo no qual o
policial não tem tempo para resolver deve-se descartar a
primeira arma, de modo a não deixar formas de ser
utilizada pelo inimigo, e fazer uso da segunda arma. A
relação nesta situação entre o policial e os seus
equipamentos é facilmente entendida e contornada com
educação e treinamento específico. Desta forma, trata-se
de uma contramedida mecânica e de fácil decisão.
Já no caso das munições, que muitos
policiais dizem não funcionar como deviam quando atingem
os agressores e estes continuam em ação, devemos alongar
um pouco mais sobre o assunto para explicar o porque
depois de o agressor ser atingido ele ainda continuar
ativo no confronto.
Devemos afirmar que esta situação, a
falta de poder de parada do projétil, é uma das causas do
excesso de portabilidade de armas de fogo pelo policial e
também pela adoção cada vez maior de armas de maior
calibre e poder de fogo em ações que muitas vezes não
seria necessária a portabilidade de armas de fogo como,
por exemplo, fuzis, metralhadoras e pistolas de calibres
pesados, e que na maioria dos casos quando utilizadas os
resultados são cada vez mais danosos e letais. Veja-se por
exemplo o trabalho realizado nos principais hospitais do
Brasil. Em anos atrás os pacientes atendidos com disparos
de arma de fogo tinham maiores chances de sobreviver e se
recuperar muitas vezes sem lesões. Hoje quando não morrem
ficam mutilados e o tempo de recuperação do paciente é
enorme o que também gera despesas maiores para o Estado.
O policial tem que ter conhecimento
de que cada confronto é único e possui variáveis que devem
ser analisadas caso a caso para que se possa entender ou
tentar compreender o final de um possível confronto armado.
“Simular e criar cenários rápidos baseados em dados e
informações coletados instantaneamente é uma das
capacidades que os policiais e militares devem treinar
para conquistar essa capacidade”.
Para começar devemos dizer que o tiro
policial de incapacitação do oponente humano respeitando
os direitos humanos é um parâmetro relativo, e não
absoluto. Ressaltamos novamente que o objetivo do policial,
ao utilizar a arma de fogo, não é o de simplesmente matar
seu agressor, mas sim, fazer com que cesse a agressão
contra ele ou contra terceiros.
Como fatores que determinam a
eficiência de um determinado tipo de projétil, temos,
relembrando, os efeitos da ação direta, pelo choque
provocado, e em seguida, da ação indireta, que dependerá
dos fatores biológicos ou psicológicos do alvo atingido. (Ver
exemplo citado mais ao final do artigo: Tiroteio em Miami,
na Flórida).
A ação direta, como visto, manifesta-se
pelos mecanismos de martelo e cunha, provocados pelo
impacto do projétil, onde este empurra e abre os tecidos,
deslocando-os. Já a ação indireta, ou expansiva, é causada
pelo choque hidrostático sobre os tecidos e órgãos, que
causa transmissão da energia cinética do projétil ao alvo,
causando lesões em estruturas não atingidas diretamente
pelo projétil. Ambas as ações são responsáveis pelos
efeitos primários dos projéteis em alvo humano, como
veremos a seguir.
Sem esquecer, temos também os fatores
intrínsecos dos projéteis, que determinam os efeitos da
ação direta, como a inércia do projétil, a configuração da
ponta (oca ou não), o fendilhamento da camisa, se esta
existir, o nível de dureza do projétil, e sua massa
(peso), e a velocidade do projétil.
Assim sendo, a incapacitação do
oponente humano tem relação direta com o tipo de projétil
empregado, mas também depende da configuração fisiológica
de cada oponente. Deve-se levar em consideração o fator
biológico de cada agressor e com base nisto entender que
um mesmo tipo de munição pode ser ineficiente contra
diferentes agressores.
Levando em consideração o fator
biológico e o tipo de munição utilizada, fator
determinante para a incapacitação do oponente humano é o
local onde o corpo do oponente é atingido pelos disparos
do policial. Os efeitos das ações direta e indireta do
impacto causado pelo projétil, se fazem sentir,
principalmente, se atingirem a zona da cabeça (cérebro) e
o centro da caixa torácica (onde o projétil pode atingir o
coração e a medula, esta no interior da coluna vertebral).
Nestes locais, a ocorrência da incapacitação é imediata em
quase 100% dos casos, se utilizada a munição correta e o
atirador atingir o alvo com dois disparos no mesmo local,
os efeitos de cavidade temporária e choque hidrostático e
os traumatismos decorrentes serão ampliados, sendo mais
provável a ocorrência do poder de parada. Daí a
necessidade de treinamento, pois mesmo um calibre
aparentemente ineficiente, utilizado corretamente pode
fazer mais efeito do que errar o disparo de uma excelente
munição.
Como a área da cabeça é relativamente
pequena em relação ao restante do alvo oferecido pelo
oponente, o policial deve habituar-se a disparar no centro
da caixa torácica, onde, se bem colocados, os projéteis
irão deter a ação do oponente, incapacitando-o.
Ainda, para que ocorram maiores
probabilidades de ocorrer a incapacitação imediata do
agressor, é necessário que o projétil tenha a forma da
ponta adequada, permitindo expansão no corpo do oponente
quando do impacto, bem como uma blindagem que permita esta
expansão. Projéteis totalmente jaquetados não possuem boa
incapacitação do oponente humano. É importante, também,
que o conjunto arma / munição possibilite um segundo
disparo imediato ao primeiro; daí a necessidade de
munições mais controláveis.
A obtenção da incapacitação do
oponente humano deve ser o objetivo do policial:
incapacitar um agressor com um mínimo de disparos, sempre
buscando atingir área em seu corpo onde o projétil vá
causar o imediato colapso do oponente, visando com que
este cesse o risco de vida que oferece ao policial, a
terceiros e ao próprio suspeito.
Esta tarefa pode ser realizada com
base nos conhecimentos dos fenômenos fisiológicos e
biomecânicos envolvidos no tiro policial de incapacitação
do oponente humano.
Quando um projétil de arma de fogo
atinge o cérebro ou o tronco cerebral e destrói estruturas
responsáveis pela consciência ou o tônus muscular dos
músculos que mantém o corpo ereto, ou quando o tiro atinge
a medula espinhal e interrompe o comando nervoso das
pernas ou mesmo dos braços e das pernas, dependendo da
altura da medula atingida, ou, ainda, em algumas pessoas,
quando atingido um vaso calibroso importante, provocando o
chamado choque hipovolêmico, ou seja, a rápida perda de
grande quantidade de sangue, há grande probabilidade de
que ele cesse imediatamente suas ações. Nesses casos, o
agressor deve cair instantaneamente.
A questão do choque hipovolêmico é um
tanto controverso, pois pode levar algum tempo, entre o
atingir do projétil e a interrupção das funções motoras do
oponente: o agressor pode seguir em ação por tempo
suficiente para concretizar o ato agressivo. Mesmo com o
coração ou a aorta, por exemplo, seriamente comprometidos,
um indivíduo pode não cair instantaneamente. Somente há
parada instantânea em cem por cento dos casos (ou o mais
próximo deste valor) quando aquelas estruturas nervosas
mencionadas - cérebro e medula - são atingidas.
Um outro mecanismo, chamado de choque
neurogênico é citado por médicos especialistas como sendo
um dos responsáveis pela queda imediata de um oponente.
Sua ocorrência é fácil de ser
observada, por exemplo, nas lutas de boxe ou de vale-tudo,
onde um lutador é posto fora de combate por um soco ou
pontapé na altura do fígado, na ponta do queixo ou no lado
da cabeça. Esse desfalecimento pode se dar por alguns
minutos ou mesmo por alguns segundos, seguido de uma
sensação de desorientação e de dificuldade em manter o
equilíbrio. Isto ocorre porque o golpe atingiu áreas do
corpo, embora superficialmente, que transmitem impulsos
nervosos ao sistema nervoso central e que chegam áreas que
governam a consciência e o tônus dos músculos
antigravitacionais das pernas, os extensores, músculos que
permitem ao corpo se manter em pé.
Não se sabe com certeza, mas este
pode ser o mecanismo que faz com que uma pessoa atingida
por um projétil em área não vital, desfaleça imediatamente.
A cavidade temporária parece ser a responsável pela
ocorrência deste choque e pela perda da consciência.
Segundo os médicos, estruturas como vísceras e
ramificações nervosas podem, se atingidas, provocar o
fenômeno. A zona do corpo humano limitada pela bacia
pélvica, por onde transitam nervos importantes para a
sustentação das pernas e pela proximidade de plexos
nervosos, como o plexo solar, é um local de alta
ocorrência do choque neurogênico. O fenômeno, entretanto,
é menos observado em indivíduos sob efeito de drogas.
Sendo assim, um policial conta com
três possibilidades principais de parar um agressor
instantaneamente: um tiro que atinja a cabeça e acerte
principalmente a estrutura do tronco cerebral; um tiro que
secione a medula espinhal; e o tiro com um projétil de
alta velocidade, que gere uma cavidade temporária capaz de
produzir o citado choque neurogênico. Assim, a maior
certeza de parar imediatamente um agressor é acertá-lo com
disparos múltiplos, uma vez que os estímulos gerados por
várias cavidades temporárias se somam, e resultam em um
poder de parada muito maior.
Podemos contar também com a
incapacitação mecânica do agressor, se nosso projétil
atingir algum osso como o fêmur. Neste caso, o agressor
irá cair instantaneamente, tanto por problemas mecânicos
como por reflexo pela dor. Entretanto, permanecerá no
domínio de seus movimentos com as mãos, e se estiver
armado com uma arma de fogo, poderá seguir atirando, pois
não terá perdido os sentidos.
A incapacitação do oponente humano
deve também levar em consideração o papel fundamental de
uma boa munição. Por causa desta busca mais correta no uso
da arma de fogo e do tiro policial tem-se, hoje, então,
uma grande variedade de exóticos tipos de projéteis,
desenvolvidos segundo alguns critérios por diversos
fabricantes de munições no mundo todo. Estas munições de
alta tecnologia, conhecidas por “munições fora de série”
ou munições “high-tech”, estão disponíveis em todos os
calibres para armas de defesa e uso policial, desde o
calibre .25 ACP até o .50 Action Express. Algumas delas
são bastante populares, até mesmo no Brasil, como é o caso
da Federal “Hydra-Shok” ou a Winchester “Silvertip”.
Outras, mais recentes, como as “Razor-Rhino” e a “Dixon
Omega Star” surgem como opções eficazes para a obtenção da
tão desejada incapacitação do oponente humano.
O desenvolvimento de qualquer
projétil para arma curta envolve compromissos. Uma grande
munição de competição pode ter um pobre desempenho no uso
policial, assim como uma excelente munição de caça
raramente é uma boa opção para a defesa pessoal, por
motivos óbvios.
Nenhum desenho de projétil para arma
curta pode ser considerado perfeito, pois não existe
aquela munição que assegure a obtenção, em 100 % dos casos,
da incapacitação imediata do agressor. Isto somente é
possível, com este grau de certeza, quando se faz uso de
uma arma longa de alta potência, como um fuzil de assalto.
Todavia, o uso de armas curtas é amplamente utilizado não
por serem potentes, mas por serem facilmente
transportáveis de forma correta.
Correta porque a incapacitação do
oponente humano depende também do acesso fácil, rápido e
correto do equipamento pelo policial. Para esclarecer
melhor essa posição e mostrar o quanto esta diretamente
ligado a incapacitação do oponente humano ao armamento
vale usar o exemplo do famoso "Tiroteio de Miami", citado
por diversos autores especializados no assunto.
Este incidente ocorreu em abril de
1986, em Miami, na Flórida (EUA), quando dois marginais
armados, cada um com um revólver .357 Magnum , um com uma
espingarda calibre 12 e o outro com um rifle, foram
perseguidos por 8 agentes do FBI. A perseguição terminou
com a colisão de viaturas e veículos civis, dentre os
quais o dos meliantes, o que possibilitou que os agentes
os interceptassem. Alguns agentes do FBI , segundo afirmam
os especialistas, traziam seus revólveres sobre o banco do
carro, de modo a poderem empunhá-los mais rapidamente. Com
o choque das viaturas, as armas que estavam sobre os
bancos foram jogadas longe, e muito tempo foi perdido para
apanhá-las.
As armas de coldre dos agentes eram
revólveres .357 Magnum (5 deles) e pistolas 9mm Parabellum
(3 deles). As falhas apontadas no incidente revelaram que
os revólveres estavam sendo usados com munição .38 SPL 158
grains SWC HP, de chumbo, e não com a munição.357 Magnum
convencional.
Testemunhas afirmaram que foram
disparados 140 tiros em cerca de quatro minutos.
Apenas dois dos agentes portavam uma
backup gun, mesmo assim ainda no calibre .38 SPL.
Com a enorme quantidade de tiros
disparados, vários deles ficaram sem munição, sendo
feridos ou mortos no ato de tentarem remuniciar suas armas.
Os dois marginais foram mortos
durante a ocorrência. Um deles, armado com um rifle Ruger
Mini-14, estava mortalmente ferido, com um projétil 9mm
Parabellum Silvertip 115 grains, colocado a menos de meia
polegada do coração, que havia atingido a artéria pulmonar.
Mesmo ferido, continuou disparando seu rifle, matando e
ferindo vários agentes.
Finalizado o tiroteio, restaram dois
agentes mortos e seis feridos, dois dos quais ficaram
neurologicamente incapacitados. O FBI atribuiu a culpa do
fracasso da operação sobre o projétil utilizado, o 115
grains 9mm Silvertip, que não chegou até o coração dos
oponentes, nos tiros que penetraram lateralmente o tórax,
depois de atingir o braço. Foi dito que, a munição, se
tivesse maior penetração, poderia ter incapacitado os
agressores.
Entretanto, a condenação da munição
foi um pretexto para desviar a atenção da verdadeira causa
do fracasso: a falta de uma tática adequada, a
ineficiência dos policiais em acertarem seus oponentes e a
munição inadequada dos revólveres. A munição acusada foi o
"bode expiatório", e o FBI passou a usar uma munição com
projétil mais pesado e de maior penetração (de 147 grains,
9mm, ainda em configuração Silvertip).
Este fato lamentável na história da
polícia norte americana, entretanto, proporcionou alguns
ensinamentos. A partir do incidente, o FBI iniciou um
estudo sério, investigando vários calibres, nas mais
diferentes situações de tiro sobre barricadas e obstáculos
que possam se interpor entre os policiais e seus oponentes.
Os resultados foram publicados em um livro, e o FBI optou
por utilizar uma nova munição recém lançada, o 10 mm, em
pistolas de grande porte. Entretanto, o calibre 10 mm se
mostrou exageradamente potente, com hiperpenetração e com
recuo muito forte, além de as pistolas do calibre serem
muito grandes para serem portadas diuturnamente. Como
resultado do fracasso inicial do calibre 10 mm, houve a
tentativa de diminuir-se a potência sem alterar o diâmetro
do projétil, diminuindo, assim, também as armas. Destas
tentativas surgiu o calibre .40, um 10 mm mais curto,
denominado .40 Smith & Wesson. A vantagem do calibre. 40
S&W é que pode ser usado em armas de menor tamanho,
praticamente as mesmas pistolas que antes serviam ao
calibre 9 mm em uso no FBI.
Em pouco tempo o calibre .40 tornou-se
o mais procurado pelas agências policiais americanas e
adotado por uma grande parte delas. Hoje é o calibre mais
popular e talvez o mais respeitado, aproximando-se em
balística do .357 Magnum.
Os marginais baleados no confronto de
Miami deram ao mundo importantes ensinamentos com relação
aos efeitos da adrenalina no corpo de um homem sob grande
tensão e perigo de vida iminente. Mesmo baleados mais de
uma vez e sangrando por artérias calibrosas, prosseguiram
contra os policiais, matando alguns e ferindo muitos antes
de tombarem. Em condições normais, um homem baleado como
foi não teria sido capaz de prosseguir atirando. Tal fato
foi atribuído a possíveis drogas que pudessem ter sido
consumidas antes da ocorrência. Mas os exames posteriores
comprovaram que os marginais não possuíam nenhuma
substância no sangue.
Para a incapacitação do oponente
humano por disparo de arma de fogo é essencial além dos
fatores já vistos anteriormente, um conjunto arma /
munição preciso e eficiente, o tipo (configuração) da
munição empregada, o local atingido no corpo do oponente,
múltiplos disparos nas zonas atingidas (salienta-se a
importância do segundo tiro), penetração suficiente do
projétil (10 a 15 polegadas), uma grande cavidade
temporária provocada pelo impacto do projétil além de boa
educação e treinamento e uso de assessórios corretos como
coldres, carregadores e outros mais.