Os Requintes da Violência e a
Adaptação do Processo Formativo de Policiais
Fabrizzio Bonela Dal Piero
Fernando A. Dal Piero
Desde as duas últimas décadas, o
professor doutor Fernando A. Dal Piero, dedica-se a
estudar questões relacionadas com a segurança da pessoa
humana vivendo em sociedade aberta.
Em 1994, já sob a égide jurídica da OSCIP_CEANTE, vimos
conduzindo estudos, pesquisas e promovendo ações e debates
públicos sobre segurança e Direitos Difusos.
Nossos esforços nos fizeram percorrer o mundo. Visitamos
mais de 41 países participando de conferências
internacionais sempre indagando o "por que" das altas
taxas de homicídio no Brasil e ainda mais, quanto desses
feitos escondem-se sob mantos pouco transparentes.
Hoje temos sob nossa responsabilidade um grupo de 16
pessoas no Brasil e 92 no exterior dedicadas á estudos
sobre Direitos Difusos.
Mas, nessa data de hoje, 16 de abril de 2007, somos
obrigados a refletir sobre o tema e algumas constatações e
fatos somaram dados ao nosso universo de pesquisador.
Primeiro acabamos de consolidar os números gerados pela
ação criminosa, pela violência exarcebada e pela
ineficiência do trabalho que é realizado pelos operadores
de polícia.
Segundo, constatamos que mesmo as nossas orientações
professorais, resultados de muitos e muitos anos de estudo
e preparação, pouco ou nada estão contribuindo para
ampliar nas pessoas, policiais que conosco trocam
experiências e vivências as suas habilidades e os seus
sensos (entre os quais o de humanidade e respeito pelo
próximo).
Diante das recentes ocorrências e percepções não é preciso
nem mesmo pensar se o que apresentamos como conhecimento,
portanto exigindo mais da capacidade mental de cada pessoa,
está sendo útil, por exemplo, para habilitar uma pessoa
operadora de segurança Militar, Municipal, Federal ou
Civil, a lidar com a irracional rivalidade entre as
organizações, fato este que prejudica a eficiência de
todas.
Além do que, as polícias - todas sem distinção - não
dominam princípios modernos de organização e gestão e
mostram agudas deficiências técnicas em metodologias de
investigação, de policiamento preventivo e principalmente
dissuasão.
Somente por estas constatações e daquilo que estudamos e
vivenciamos nos recentes dias podemos antecipar:
PRECISAMOS URGENTEMENTE REPENSAR A MANEIRA PELA QUAL
TROCAMOS VIVÊNCIAS - POLICIAIS EM ATIVIDADE E
PESQUISADORES, PROFESSORES. ALGO ESTÁ ERRADO E MUITO!
Para fundamentar o que era um receio e hoje já é uma
verdade científica decidimos averiguar qual o resultado
que o esforço coordenado pela RENAESP tem produzido.
Considere-se que temos 21 universidades e seus acadêmicos
e uma iniciativa conhecida - coordenada pela OSCIP_CEANTE
e a Universidade Federal do Piauí – com a dedicação de
pessoas voltadas para apresentar as Melhores Práticas, os
Melhores Conhecimentos e as Melhores e mais atuais
estratégias para formar "combatentes do crime".
Entretanto, constatamos que a violência - pós SENASP -
custa ao Brasil quinhentos e vinte e hum milhões (521) por
dia. Mais do que o orçamento anual do Fundo Nacional de
Segurança Pública, e um valor superior ao envolvido na
reforma da Previdência que tanto mobilizou os governos. Os
dados foram extraídos do Siafi (Sistema Integrado de
Administração Financeira do governo federal) pela
OSCIP_CEANTE.
Evidentemente que esses valores PREOCUPAM, mas, não é
somente esse o tema deste artigo.
Constatamos que as pessoas policiais estão perdendo - se
não, nunca o tiveram - o senso de humanidade e respeito ao
semelhante, mesmo aqueles que estão trabalhando juntos.
Imagine-se então como devem estar sendo tratadas às
pessoas que eventualmente cometem um ou outro deslize de
menor monta, ou mesmo aquelas que transgrediram a Lei em
todas as suas facetas.
Considerado que estamos gerando um passivo pela conduta
das pessoas que operam Sistemas de segurança precisamos
criar uma metodologia que permita apenar pecuniariamente
operadores de segurança que violentam a Lei e mais, que
diariamente agridem com violência seus colegas, de
trabalho, de outras forças policiais e mesmo pessoas que
nada têm realizado a não ser dar de si o que tem de melhor,
em benefício de quem deseja.
Não temos dúvidas, e nós mesmos estamos trabalhando para
que em breve já esteja criada, aceita e propagada uma
metodologia capaz de monetizar tais agressões.
Evidente que temos a certeza de que da mesma maneira que
se torna difícil valorar e monetizar o sofrimento físico e
psicológico das vítimas da violência originária da
delinqüência brasileira, que nos alcança a todos, de
variadas formas assim também será para valorar a violência
branca, gerada de pessoas cultas, muitas vezes em
ambientes onde predomina a cortesia e o senso de
humanidade.
Lamentavelmente a ocorrência de delitos como este que nos
referimos está cada dia mais presente. Nós mesmos, em 116
dias de observações, percebemos num grupo pequeno de
policiais em atividade que 78% deles "trocam violências"
entre si.
Outros 21% cometem violências contra pessoas que apenas "estão
de passagem" por suas vidas e procurando dar o melhor para
ver o melhor em cada pessoa.
Algumas pessoas, sob o pretexto de que existe uma
distribuição desigual da riqueza e a injusta divisão de
oportunidades de acesso aos bens produzidos na sociedade
ora sentem-se no direito de exercitar a "violência oficial"
pelo fato de estarem credenciadas. Se assim agem é
possível perceber que suas mentes se desorganizam
provocando alterações em suas personalidade.
Alias, esse fato pode, provavelmente, ser uma pista para
explicar a eficaz progressão do crime, da corrupção, da
loucura e de toda sorte de desvios sociais manifestos
diariamente e que na maior parte das ocorrências aceitamos
sem qualquer observação.
Sabemos que a violência vivida no cotidiano, por pessoas
policiais em atividade, provoca alterações de
comportamento de natureza emocional que leva à falta de
afeto tanto por si como por seus semelhantes, maridos,
esposas e mesmo colegas de trabalho.
Conforme já mencionamos este fato é conhecido como "violência
branca", ou seja, uma série de pequenos crimes praticados
diária e subterraneamente contra todos nós acaba evoluindo
e assim a opção ilegal é favorecida pela tolerância
cultural aos desvios sociais e pelas deficiências de
nossas instituições de controle social: polícia
ineficiente, legislação criminal defasada, estrutura e
processos judiciários obsoletos, sistema prisional caótico.
Tanto a própria violência branca quanto a interação entre
essas deficiências institucionais enfraquece sobremaneira
o poder inibitório do sistema de justiça criminal e nos
preocupa.
O que desejamos indicar neste artigo é que caracterizar a
violência branca e a tolerância somente como agressão
física direta - criminalidade - é deixar de perceber todos
os seus meandros.
Este fato social tão desagradável em nosso cotidiano
assume formas sutis e, quando bem manejadas, são
extremamente sofisticadas, podendo passar como condições "naturais"
do viver humano.
A violência branca e a conseqüente criminalidade, presente
em nosso país é fruto de um tipo específico de crise
social que, além de gerar o subemprego e a marginalidade,
provoca problemas socioculturais na vida moderna, cujo
ritmo intenso tende a alterar valores éticos até então
consagrados.
De fato, existe um dito popular que menciona o fato de "quem
procura acha". E nós imaginávamos até mesmo que um dia
iríamos encontrar uma série de manifestações pelas quais
este "conjunto de fatores" relacionados com a violência
branca pudesse tornar-se evidente. E até mesmo, é bom que
se escreva, esperávamos vivenciar um momento onde a teoria
Lombrosiana pudesse demonstrar que senão toda, grande
parte, é uma realidade. Entretanto, também em razão do que
sabíamos, sempre procuramos pautar nossas falas e
comportamentos de maneira branda para evitar o dia do "fatídico
encontro".
E mais, como professor de temas relacionados ao estudo da
violência, sempre nos preparamos para presenciar todas as
maneiras pelas qual esta se manifesta. Entretanto, todas
as vivências que pensamos poder aproveitar para lidar com
a temática sem mágoas, caem quando percebemos nós mesmos
vítimas de violência "gratuita" e que, a nosso juízo,
devemos aceitar como cristãos que somos adotando a máxima
de que ”se lhe batem numa face, deve-se oferecer a outra”.
Em síntese: é triste reconhecer, mas o resultado de tudo o
que temos presenciado nos dias recentes é que - de alunos
a professores - todas as pessoas, tornaram-se violentas e
gerando uma insana selvageria individual e a conseqüente,
excessiva e permanente agressividade entre as pessoas de
seus convívios.
De fato creio eu, hoje que, falar ou escrever, apresentar
melhores práticas ou "patrulhar ruas", tomar declarações
ou "conta de presos" é expor-se à violência e a
criminalidade que estão flagrantes em cada pessoa, nos
lares e nas cidades é, sobretudo, falar e pôr a descoberto
o caráter perverso das nossas próprias relações.
Para não alongar-me mais nesse relato de constatações
gostaria de frisar o caráter propositivo da ação
idealizada por ilustres professores anônimos, que estudam
o Direito Difuso no mundo.
Hoje, eu que ontem advoguei pela ação de Formação Superior
em massa para policiais, penso atualmente que antes
deveríamos envolver cada uma dessas pessoas para a
realização de atitudes que carreguem em seu bojo a
educação informal, a humanização e o respeito ao trabalho,
seja o mais simples ou o mais complexo.
Cremos que assim, através da prévia preparação, os
espíritos humanos "desarmados" poderão assimilar práticas,
conhecimentos e métodos que poderão vir a reduzir a
violência urbana.
Acreditamos sinceramente que somente desta forma poderemos
ampliar a qualidade de nossas vidas e alcançar todos os
objetivos diagnosticados para serem implementados e
reduzir o crime e a violência.
Recentemente em uma conferência na Cidade de Teresina -
Estado do Piauí - indicamos um caminho para reduzir o
delito e a violência.
Dissemos na ocasião e repetimos hoje: é preciso refundar a
educação, repensar a palavra respeito, dignidade e amor ao
próximo.