ATIRANDO NO ESCURO
Fabrizzio Bonela
Dal Piero
“Mantenha uma boa
lanterna em mãos porque ela vai ser
fundamental em alguns dos momentos
críticos de sua vida profissional”.
Ao amanhecer, ainda na penumbra do dia,
um homem nos EUA acordou percebendo um
vulto estranho entrando porta dentro do
seu quarto. Apavorado logo agarrou sua
espingarda ao lado da cama e efetuou um
disparo em direção a figura sombria. O
tiro acertou sua esposa. Aparentemente
ela tinha acordado e foi beber um copo
de água. Foi-se a óbito por um tiro
disparado pelo seu marido que a
confundiu com um criminoso.
Enganos como este podem ocorrer até
mesmo com policiais e militares com anos
de carreira. Em 2008, na Califórnia, EUA,
um policial respondeu a uma chamada no
qual foi enviado para averiguar barulhos
suspeitos em um apartamento. Ao entrar
no apartamento iniciou uma busca sozinha.
Logo que entrou em um dos cômodos,
iluminado apenas pela luz da televisão,
se deparou com um vulto que segurava uma
arma de fogo de modo ameaçador.
Imediatamente o oficial reagiu à ameaça
e efetuou seus disparos que acertaram o
suspeito que ao chão logo se foi.
O vulto derrubado pelos disparos era
apenas um menino que estava sozinho em
casa. A arma que portava era um
simulacro de brinquedo. Um único disparo
do policial acertou o menino no pescoço
ocasionando a sua morte. A mãe da
criança neste caso logo foi acusada de
negligência. A investigação também
mostrou que os barulhos que os vizinhos
escutaram era a própria criança que
estava buscando algum tipo de alimento
nos armários da cozinha já que ficou
comprovado que estava a mais de 24 horas
sozinha em casa. Outra questão que ficou
comprovada foi que o apartamento estava
totalmente apagado devido à mãe ter
saído ao dia e ter deixado as lâmpadas
apagadas. A estatura da criança não
atingia a altura dos interruptores para
ascender as lâmpadas.
Depois dos processos corridos o oficial
relatou em depoimentos que ele havia
feito um curso onde alguns instrutores o
tinham dito que não era bom usar uma
lanterna porque iria prejudicar na
rapidez de localizar e mirar no alvo.
Fica evidente que o treinamento foi
errôneo e que uma pequena lanterna que
fosse teria salvado uma vida. Pessoas
que alegam coisas parecidas não sabem o
que estão falando e jamais poderiam ser
instrutores policiais e militares.
Quando operamos em baixa luminosidade
lidamos com um fator chamado de
“scotopic vision” ou visão escotópica.
Em algumas espécies, particularmente as
adaptadas a atividade noturna e com
grande desenvolvimento da visão noturna,
como o besouro-elefante, existe
percepção das cores em situações de
quase total escuridão.
No olho humano os cones não funcionam em
condições de baixa luminosidade, o que
determina que a visão escotópica seja
produzida exclusivamente pelos
bastonetes, o que impossibilita a
percepção das cores. Em média, a visão
escotópica humana ocorre em luminâncias
entre 10-2 e 10-6 cd/m². Em condições
intermédias de luminosidade (níveis de
luminância entre 10-2 e 1 cd/m²), o olho
humano é capaz de produzir uma forma de
visão, designada visão mesópica,
efetivamente uma combinação da visão
fotópica com a visão escotópica.
Contudo, esse tipo de visão permite
baixa acuidade visual e uma deficiente
discriminação das cores. Com níveis
normais de luminosidade (níveis de
luminância entre 1 e 106 cd/m²), a visão
produzidas pelos cones domina e surge a
visão fotópica, que no olho humano
corresponde à máxima acuidade visual e
discriminação de cor.
No olho humano, a máxima sensibilidade
em visão escotópica atinge-se depois de
cerca de 45 minutos de permanência na
obscuridade, o que corresponde ao tempo
necessário para se proceder à
regeneração da quase totalidade das
moléculas de rodopsina dos bastonetes
para a sua forma ativa. Em resultado da
repartição dos bastonetes na retina, a
máxima sensibilidade não se situa sobre
o eixo óptico, mas a cerca de 6º para a
sua periferia, pois a fóvea é
constituída unicamente por cones. Daí
resulta ser a visão escotópica
marcadamente periférica.
A sensibilidade do olho humano aos
diferentes comprimentos de onda em visão
escotópica defere substancialmente da
sensibilidade em visão fotópica,
atingindo o seu pico em torno dos 507
nanômetros. Em conseqüência, na
literatura científica surge por vezes o
termo lux escotópico, o qual corresponde
ao lux fotópico corrigido utilizando a
escala ponderal obtida pela aplicação da
função de luminosidade escotópica.
Dados coletados entre 1995 até 2004 pelo
F.B.I. junto aos seus oficiais mortos em
trabalho ficou comprovado que 65% das
mortes ocorreram entre às 20:00 horas e
08:00 horas.
Cientificamente comprovado, em baixa
luminosidade nosso corpo se transforma e
algumas de nossas capacidades são
reduzidas por conta da falta de
iluminação. Todavia, atualmente podemos
contar com a tecnologia para apoiar a
realização dos trabalhos policiais e
militares em baixa luminosidade. Hoje
podemos contar com os mais diversos e
variados sistemas artificiais de
iluminação, podemos contar com uma
enorme gama de lanternas de várias
marcas, modelos e tamanhos. Temos
equipamentos de iluminação para as armas,
óculos que nos permitem ver no escuro,
lasers de várias cores e já podemos usar
de conceitos e uma educação própria para
os treinamentos em baixa luminosidade.
Então o que falta para evitar erros e
enganos que não cansam de levar vidas
inocentes em todo o mundo?
Cabe a todo profissional entender a
dinâmica do trabalho em baixa
luminosidade e buscar sempre as melhores
ferramentas para a execução de suas
atividades. Nos combates em baixa
luminosidade vale lembrar:
- Os lasers melhoram nossa capacidade
para mirar no alvo, mas não ajudam na
sua identificação. O uso de uma lanterna
sempre será necessário para ajudar neste
processo de localização e identificação.
- Um bom feixe de luz projetado no rosto
do oponente prejudica a sua capacidade
de nos ameaçar. Uma boa lanterna deveria
ser um equipamento assim como a arma de
fogo do policial e militar em seu
trabalho, fundamental.
- Além disto, educação e treinamento
devem ser freqüentes para aprimorar as
táticas e técnicas em baixa luminosidade.
Estas são apenas algumas dicas
incansáveis de se lembrar e que valem
ser sempre ditas quando há oportunidades.
Para saber mais acesso o website:
http://www.tda3.com.br e fique por
dentro do que esclarece o especialista
do assunto em várias situações em baixa
luminosidade.
Assim como o que se deve fazer existe o
que não se deve fazer em baixa
luminosidade. Certa vez tive a
oportunidade de presenciar uma situação
crítica dentro de uma Unidade Policial
na Europa. Um policial foi mostrar para
um amigo um cão policial que estava na
traseira da viatura só que o local
estava muito escuro. Foi então que um
terceiro envolvido localizado na parte
da frente da viatura sacou sua arma de
fogo e com a luz de sua “weapon light”
iluminou o local onde estava o animal. A
cena vista por qualquer um que não
estava participando do episódio poderia
ser interpretada como uma situação de
confronto armado, um desentendimento
entre eles que ocasionou uma briga
obrigando o saque da arma de fogo do
policial à frente da viatura. Para
iluminar, deveria ter sido utilizado uma
lanterna simples, comum. O equipamento
que fica acoplado às armas de fogo,
“weapon light” são para uso em conjunto
e não devem ser usadas para a finalidade
simplesmente de iluminar, tendo em vista
que para isto exige o direcionamento da
arma de fogo também. É por isto que é
comum encontrar instrutores fazendo uso
em suas táticas e técnicas de três
equipamentos distintos: “weapon light”,
lanterna principal e uma lanterna menor
que serve de “back-up”.
Outro quesito necessário para aumentar
nossas chances de sobreviver em
situações que ameaçam a nossa vida é
rapidez para mirar no alvo.
É comum no trabalho policial e militar
encontrarmos profissionais com anos de
experiência e vasta capacidade tática e
técnica que são responsáveis por
resultados obtidos em algumas situações
que muitos afirmam ter ocorrido erro no
uso letal da força.
Simulo para ilustrar o dito o seguinte
cenário: um oficial policial realizando
seu trabalho sob condições extremas, mau
tempo, chuva e noite, encontra um
suspeito que mantêm suas mãos dentro dos
bolsos do casado mesmo diante das ordens
do policial, parado, mãos para cima!
Em algum momento o suspeito retira uma
das mãos e logo a outra aparece com um
objeto escuro em seu interior. Aos olhos
do oficial já com seus 50 anos de idade
e sob as piores condições naturais para
a realização da abordagem ele não tem
dúvidas e efetua um único disparo no
centro do corpo do suspeito, acertando a
caixa torácica do suspeito que cai ao
chão com danos fatais.
Isto porque na concepção do policial foi
o ponto mais fácil para mirar. Jamais
ele iria tentar fazer um tiro na perna,
braço ou ombro, afinal era o suspeito ou
o policial. Neste caso irreal o suspeito
era um homem inocente que tinha apenas
ido à farmácia para comprar um
medicamento para a sua esposa.
Se houvesse, por parte do policial,
feito o uso de um laser ele poderia ter
feito mira exatamente onde desejasse
acertar no suspeito mesmo sob as mais
severas condições ambientais. Em nosso
cenário o policial poderia ter visto se
utilizado, o ponto do laser sob o corpo
do suspeito e assim decidir melhor onde
atirar para dominar a situação. Além
disto, vale dizer o poder de intimidação
que o laser promove contra o alvo. Na
mente do suspeito ele sabe que está sob
a mira de uma arma de fogo.
É claro que qualquer um de nós colocados
em uma situação como a imaginada acima
teríamos também que escolher atirar ou
morrer. Todo policial deve estar
preparado para isto, faz parte do
trabalho em Segurança Pública.
Entretanto, para manter nosso preparo
profissional diante de uma situação de
risco de vida devemos fazer uso dos
acessórios e equipamentos certos que
associados com muito treinamento vão nos
permitir alcançar um resultado correto e
certo.